
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi aconselhado por integrantes do comando nacional do partido a não participar da convenção estadual do PT da Bahia, marcada para este sábado, 1º de agosto, no Parque de Exposições de Salvador.
A orientação foi transmitida depois que novas informações da investigação sobre as conexões do senador Jaques Wagner (PT) com pessoas ligadas ao Banco Master passaram a circular publicamente, segundo apuração do O Bahia Post com fontes que acompanham as discussões em Brasília.
A convenção deverá oficializar a candidatura do governador Jerônimo Rodrigues à reeleição e as candidaturas de Wagner e do ex-ministro Rui Costa ao Senado. A presença de Lula havia sido anunciada pelo próprio Jerônimo em 22 de julho, após uma conversa telefônica com o presidente.
A avaliação feita nos últimos dias, entretanto, é que a participação de Lula colocaria o presidente no centro da repercussão do caso Master exatamente no momento em que o PT pretende apresentar sua chapa e iniciar a campanha estadual.
Até o fechamento desta reportagem, não havia sido divulgada uma decisão definitiva sobre a viagem. A orientação para que Lula não compareça não significa, portanto, que a presença esteja formalmente cancelada.
Fontes ouvidas pelo O Bahia Post afirmam que dirigentes nacionais temem que as imagens do presidente ao lado de Wagner sejam utilizadas por adversários para associar diretamente a campanha presidencial às suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
O receio aumentou depois da divulgação de dados que indicariam uma relação frequente entre Wagner e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. Segundo informações constantes do inquérito, teriam sido identificadas ao menos 74 ligações, que somariam mais de cinco horas e meia de conversas em um intervalo de 555 dias.
O número, por si só, não comprova a prática de crime. Os registros de chamadas são utilizados pelos investigadores como um dos elementos para demonstrar a frequência e o grau de proximidade entre o senador e o empresário.
Mensagens extraídas do celular de Augusto Lima já haviam revelado contatos recorrentes com Wagner e ofertas de aeronaves particulares para viagens do parlamentar e de familiares. Uma das situações citadas pela investigação envolve um deslocamento, em outubro de 2023, entre Salvador e a chamada Ilha da Paixão, apontada como propriedade do empresário.
A Polícia Federal também descreveu Wagner como um interlocutor relevante em assuntos de interesse do grupo ligado ao Master no Congresso Nacional. Entre os temas analisados estão mudanças no crédito consignado, requerimentos parlamentares, a tentativa de venda do banco ao BRB e uma proposta relacionada à cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Wagner nega ter atuado em favor do Banco Master e afirma não ter recebido pagamentos da instituição financeira. O senador sustenta que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado formalmente em processo relacionado aos fatos investigados.
A investigação apura suspeitas de que pessoas ligadas ao núcleo familiar do parlamentar tenham recebido valores de empresas relacionadas a Augusto Lima. Também está sob análise um apartamento de alto padrão em Salvador, avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões, que a Polícia Federal suspeita ter sido destinado ao senador.
Wagner declarou que pediu a Augusto Lima que comprasse o imóvel para que ele pudesse adquiri-lo posteriormente e negou que o apartamento representasse vantagem indevida.
O senador foi alvo de busca e apreensão em junho, na nona fase da Operação Compliance Zero. Agentes encontraram dólares e euros em endereços ligados a ele, em valor convertido de aproximadamente R$ 471 mil. Wagner afirmou que o dinheiro tinha origem em diárias legais recebidas em viagens internacionais e não utilizadas. As cédulas foram encaminhadas para perícia.
A Polícia Federal também intimou o senador a prestar depoimento, previsto para o início de agosto. Por orientação de sua defesa, Wagner tem evitado responder detalhadamente sobre o inquérito e afirma que sua inocência será demonstrada.
A preocupação do PT nacional não está restrita ao resultado jurídico da investigação. O impacto mais imediato é eleitoral.
Lula pretende disputar a reeleição enquanto Jerônimo busca um segundo mandato na Bahia, principal base eleitoral do presidente no Nordeste. Wagner e Rui Costa, dois dos nomes mais influentes do partido no estado, compõem a chapa para o Senado.
Uma convenção com os quatro juntos produziria uma demonstração de unidade. Também entregaria à oposição imagens de Lula abraçando e defendendo um candidato submetido a uma investigação de ampla repercussão nacional.
Integrantes do partido ouvidos pelo O Bahia Post avaliam que, neste momento, o custo da fotografia pode superar o benefício eleitoral do evento.
As mesmas fontes afirmam que o presidente já havia sido aconselhado anteriormente a reduzir sua exposição ao núcleo do PT baiano enquanto o caso avançava. A divulgação dos registros telefônicos e de novos diálogos reforçou a recomendação.
A ausência, porém, também produziria consequências.
Jerônimo anunciou publicamente a participação de Lula e vinculou a presença presidencial ao lançamento da chapa. Um cancelamento na véspera poderia ser interpretado como tentativa de distanciamento de Wagner e ampliaria a percepção de crise interna.
O desafio do Palácio do Planalto é evitar que a ausência pareça abandono político, mas também impedir que a convenção estadual transforme o caso Master em assunto nacional de campanha.
O PT poderá alegar conflito de agenda ou alterar o formato da participação, com mensagem gravada ou entrada por vídeo. Qualquer mudança, entretanto, será examinada à luz das novas informações do inquérito.
Para Jerônimo, a presença do presidente é particularmente relevante. Lula continua sendo o principal ativo eleitoral do grupo governista na Bahia, e a campanha estadual pretende explorar a relação entre os governos federal e estadual como argumento pela continuidade.
Para Wagner, o comparecimento teria significado uma demonstração pública de apoio do amigo e principal líder do partido. O presidente já havia telefonado ao senador após a operação da Polícia Federal, segundo relato do próprio parlamentar.
A recomendação para que Lula não vá mostra que o caso ultrapassou a situação individual de Wagner. A investigação agora influencia decisões de agenda do presidente, a apresentação da chapa baiana e a estratégia nacional do PT.
Não há condenação contra Jaques Wagner no caso Master. As suspeitas ainda estão em investigação e deverão ser submetidas ao contraditório. A cautela jurídica, contudo, não elimina o desgaste político provocado por registros de chamadas, viagens em aeronaves disponibilizadas por empresários e suspeitas de benefícios financeiros.
A convenção foi planejada para lançar Jerônimo, Wagner e Rui Costa sob a liderança de Lula. A menos de 24 horas do evento, o partido discute se a presença do presidente fortaleceria a chapa ou transformaria o palco em mais um capítulo da crise envolvendo o Banco Master.
