
ANÁLISE | EDITORIAL DO O BAHIA POST
Esta publicação reúne informações documentadas, relatos atribuídos às respectivas fontes e a análise editorial do O Bahia Post. As avaliações sobre prioridades administrativas e responsabilidade política representam a interpretação do veículo sobre os fatos apresentados.
Nove dias após o fim do Evento Pedrão, um pai denunciou que a esposa esperou cerca de quatro horas por uma cesariana por suposta falta de anestesista. A prefeitura, que firmou 14 contratos milionários para atrações da festa, recebeu mais de 24 horas para se explicar e não respondeu.
O prefeito já foi condenado por improbidade administrativa por autorizar o uso de recursos do Fundo Municipal de Saúde no abastecimento de veículos particulares e de um trio elétrico de sua empresa.
Entre 1º e 4 de julho, a cidade recebeu atrações de projeção nacional, entre elas Ivete Sangalo, Bell Marques, Xand Avião, João Gomes e Gusttavo Lima, na festa que a Prefeitura de Eunápolis apresenta todos os anos como vitrine de grandeza, turismo e capacidade administrativa. Documentos publicados no próprio portal do município registram 14 contratos artísticos que somam R$ 5.734.000.
Na manhã de 13 de julho, o cenário era outro. Uma gestante chegou ao Hospital Regional por volta das 5h, segundo relato do marido publicado inicialmente pelo Portal SulBahia. A cesariana teria sido realizada apenas às 9h. A menina nasceu sem vida.
Segundo o pai, a explicação recebida pela família foi a ausência de um anestesista disponível na unidade naquele momento.
A Prefeitura de Eunápolis, a Secretaria Municipal de Saúde e a direção do Hospital Regional tiveram 24 horas, a partir de um pedido de posicionamento enviado por O Bahia Post em 16 de julho, para contestar os horários, apresentar a escala do plantão e explicar o ocorrido. Até as 17h deste sábado, 18 de julho, não responderam.
Quatro horas
O relato do pai foi divulgado pelo Portal SulBahia. Segundo ele, a esposa chegou ao Hospital Regional em trabalho de parto por volta das 5h. A família teria aguardado até aproximadamente as 9h para a realização da cesariana. Ao final do procedimento, a menina nasceu sem vida.
O homem relacionou a perda da filha à demora e cobrou explicações sobre a assistência prestada à esposa. Também afirmou que a ausência de um anestesista teria sido apresentada como motivo para a espera.
Essa é, até o momento, a única versão disponível. O Bahia Post não teve acesso ao prontuário, à escala do plantão, aos registros dos horários de avaliação ou a eventual investigação médica sobre o caso, e não conseguiu, até o fechamento desta edição, confirmar o relato de forma independente junto a fontes hospitalares. Sem esses documentos, não é possível concluir que a espera tenha provocado o óbito fetal, nem atribuir negligência a um profissional específico.
A prefeitura poderia ter apresentado os registros que confirmam ou contestam essa versão. Não apresentou. A direção do hospital poderia ter informado se havia anestesista escalado, quantos obstetras estavam no plantão e quando a cirurgia foi indicada. Também não informou.
A família permanece com sua versão. O poder público, até agora, não ofereceu outra.
O hospital já estava sob alerta
O caso não ocorreu em uma unidade sem histórico conhecido de problemas.
Em janeiro de 2025, o Ministério Público da Bahia recomendou que a Secretaria Municipal de Saúde e a direção do Hospital Regional corrigissem o que classificou como irregularidades graves. A recomendação, assinada pela promotora Mariana Araújo Libório, teve como base uma auditoria da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, que identificou insuficiência de profissionais, falta de medicamentos, insumos e materiais, dificuldades de higienização e equipamentos, entre eles o tomógrafo e o aparelho de raio X, com funcionamento limitado ou inoperante.
O Ministério Público concedeu 60 dias para reorganizar escalas, recompor equipes e regularizar medicamentos e materiais, e 90 dias para as correções estruturais. Dias depois, a própria prefeitura decretou situação de emergência no hospital, classificando a unidade em estado de perigo público e autorizando a dispensa de licitações para agilizar soluções.
Havia o que corrigir. Havia quem deveria corrigir. Havia um prazo para que isso fosse feito.
A gestão de Robério Oliveira, portanto, conhecia o cenário: o próprio decreto de emergência é um reconhecimento formal do problema. O que a prefeitura não explicou é quanto daquele cenário estava resolvido em 13 de julho de 2026, quando uma família diz ter esperado quatro horas por uma cesariana.
Não é a primeira vez
Esta não é a primeira vez que a trajetória de Robério Oliveira cruza dinheiro da saúde pública com entretenimento.
Em seu primeiro mandato como prefeito de Eunápolis, entre 2005 e 2008, a Justiça Federal o condenou por improbidade administrativa por autorizar o abastecimento de veículos particulares e de um trio elétrico pertencente à sua própria empresa, a Axé & Cia, com combustível pago com recursos do Fundo Municipal de Saúde. O secretário municipal de Saúde da época também foi condenado no mesmo processo, acusado de assinar as autorizações de abastecimento.
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região confirmou a condenação em 2019 e decretou a perda dos direitos políticos de Robério por cinco anos. Uma liminar suspendeu temporariamente os efeitos da pena em 2024, permitindo que ele disputasse e vencesse a eleição daquele ano para um quarto mandato. Em abril de 2025, a liminar foi derrubada e a Justiça Federal determinou seu afastamento imediato. O caso seguiu em disputa nos tribunais superiores, e em novembro de 2025 a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, mantê-lo na prefeitura, com base em uma questão processual sobre qual versão da Lei de Improbidade Administrativa deveria reger o caso, sem reexaminar o mérito da condenação original.
O episódio do trio elétrico não tem relação direta com os fatos de 2026 apurados nesta reportagem. Mas estabelece, por decisão judicial, que o mesmo prefeito já usou dinheiro carimbado para a saúde pública para financiar sua própria estrutura de festa.
R$ 5.7 milhões.
Para o Pedrão, a prefeitura demonstrou capacidade de agir com números grandes.
Documentos publicados pelo próprio município registram 14 contratos de atrações artísticas que, somados, chegam a R$ 5.734.000.
| Atração | Contrato | Valor |
|---|---|---|
| Ivete Sangalo | CT144-2026 | R$ 800.000 |
| Bell Marques | CT077-2026 | R$ 800.000 |
| Xand Avião | CT073-2026 | R$ 800.000 |
| João Gomes | CT075-2026 | R$ 750.000 |
| Pablo | CT074-2026 | R$ 700.000 |
| Limão com Mel | CT082-2026 | R$ 400.000 |
| Thiago Aquino | CT092-2026 | R$ 350.000 |
| Priscila Senna | CT081-2026 | R$ 350.000 |
| Eduardinho dos Teclados | CT149-2026 | R$ 200.000 |
| Seu Mastruz | CT083-2026 | R$ 200.000 |
| Cacau com Leite | CT079-2026 | R$ 160.000 |
| Breno e Bernardo | CT084-2026 | R$ 150.000 |
| Sandro Lúcio | CT154-2026 | R$ 60.000 |
| Renata de Paula | CT157-2026 | R$ 14.000 |
| Total | R$ 5.734.000 |
Os cinco maiores contratos, de Ivete Sangalo, Bell Marques, Xand Avião, João Gomes e Pablo, concentram R$ 3,85 milhões, cerca de dois terços de toda a soma. Três deles (Ivete Sangalo, Bell Marques e Xand Avião, R$ 800 mil cada) ultrapassam o teto de R$ 700 mil que o próprio Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia usa como parâmetro para contratação de atrações artísticas com dinheiro público, recomendando que valores acima disso sejam bancados por patrocínio privado.
O TCM-BA já demonstrou disposição para intervir nos gastos do Pedrão em 2026: em 10 de junho, o tribunal suspendeu por cautelar o Chamamento Público nº 002/2026, aberto pela prefeitura para a exploração comercial de espaços do evento. E não é a primeira vez que Eunápolis é questionada sobre transparência nesses gastos: em 2025, a prefeitura informou ao Painel da Transparência do Ministério Público mais de R$ 5 milhões em despesas com o Pedrão daquele ano, mas sem detalhar os cachês pagos a atrações como Bell Marques.
Os R$ 5.734.000 de 2026, de todo modo, não representam a conta completa da festa. O levantamento considera apenas as 14 atrações listadas acima. Não inclui palco, sonorização, iluminação, geradores, segurança, publicidade, limpeza, transporte, hospedagem e outros serviços necessários para colocar o evento de pé. O custo real, portanto, é maior. Quanto maior, a prefeitura não respondeu.
O palco funciona
Um show não começa quando o artista sobe ao palco.
Antes disso, alguém prepara o processo, reúne documentos, justifica o preço, reserva recursos, assina o contrato, organiza transporte, hospedagem, segurança e estrutura. Isso exige planejamento, dinheiro e velocidade.
No Pedrão, essa capacidade apareceu. Os contratos foram formalizados. Os artistas chegaram. Os palcos ficaram prontos. O evento aconteceu.
No Hospital Regional, segundo o relato do pai, uma gestante esperou aproximadamente quatro horas por uma cesariana porque não haveria anestesista disponível.
A comparação não prova que os recursos dos shows poderiam ter sido simplesmente transferidos para a saúde. O orçamento público tem fontes e regras diferentes. Também não prova que o Pedrão tenha provocado o nascimento sem vida. Prova algo mais elementar: quando a prefeitura decidiu organizar um evento de grande porte, encontrou estrutura administrativa para executá-lo depressa. Quando uma família precisou de uma cirurgia de emergência, segundo o relato disponível, encontrou espera.
O show fora da conta
Gusttavo Lima também se apresentou no Pedrão, mas seu cachê não entra nos R$ 5,734 milhões.
No portal municipal, o contrato ligado à apresentação do cantor aparece pelo valor formal de R$ 0,01. Documentos citados junto ao Tribunal de Contas dos Municípios mencionam uma proposta que atribuía R$ 2 milhões ao show, estruturada como patrocínio de uma empresa que assumiria a contratação do artista e parte da estrutura de um camarote em troca de direitos de exploração comercial de espaços do evento. Em decisão preliminar, o TCM registrou que ainda não estava demonstrada a existência de prejuízo ao município, mas indicou que as contrapartidas econômicas e o fluxo de recursos deveriam continuar sendo examinados.
O Bahia Post não conseguiu, até o fechamento desta edição, confirmar de forma independente os valores exatos desse contrato de patrocínio. O padrão, porém, não é inédito: um levantamento do jornal A Tarde já havia identificado, na edição de 2025 do Pedrão, que o cachê de Gusttavo Lima ficou fora da soma oficial informada ao Ministério Público porque, segundo a prefeitura, o cantor foi pago pela iniciativa privada.
O contrato de um centavo, o show declarado em R$ 2 milhões e as contrapartidas concedidas à patrocinadora serão objeto de uma investigação específica de O Bahia Post.
A versão que a prefeitura divulgou
A Prefeitura de Eunápolis afirma que encontrou o Hospital Regional em condições precárias e iniciou, em 2025, uma reforma da unidade. Em comunicações oficiais, a gestão anunciou intervenções em pisos, banheiros, instalações elétricas e hidráulicas, climatização, elevadores e áreas externas, além da entrega de aparelhos de raio X, ultrassom, autoclave, macas, leitos e monitores, parte deles com apoio do Governo da Bahia e de emendas parlamentares.
Essas informações fazem parte da resposta pública do governo ao histórico do hospital e precisam ser registradas. Mas não respondem ao caso de 13 de julho. Uma obra anunciada em 2025 não informa se havia anestesista no plantão de 2026. Um aparelho entregue não explica por que, segundo o pai, a cesariana demorou quatro horas. Uma publicação institucional não substitui prontuário, escala, horários e sindicância.
Vinte e quatro horas de silêncio
Em 16 de julho, O Bahia Post enviou à Prefeitura de Eunápolis, um pedido detalhado de posicionamento.
Foram feitas perguntas sobre o horário de entrada da gestante, a primeira avaliação médica, o momento em que a cesariana foi indicada, a escala do anestesista, a causa registrada do óbito fetal e a abertura de uma investigação interna. A reportagem também perguntou quanto dos R$ 5.734.000 havia sido empenhado, liquidado e pago, quais fontes financiaram os contratos e qual foi o custo total do Pedrão.
O prazo terminou 24 horas depois. Até as 21h de 17 de julho, não houve resposta.
A prefeitura teve a oportunidade de contestar os horários relatados pelo pai, apresentar a escala médica, demonstrar o cumprimento das recomendações do Ministério Público e explicar a execução financeira dos contratos. Não o fez. Caso uma manifestação seja encaminhada posteriormente, O Bahia Post atualizará esta reportagem, registrando o conteúdo e o horário da inclusão.
Nero sem lira
A história transformou Nero no governante que tocava música enquanto Roma ardia. É provável que a cena nunca tenha ocorrido como foi contada. Isso não impediu que a imagem sobrevivesse por quase dois mil anos, porque ela não depende de uma lira verdadeira: descreve o poder que celebra enquanto a população pede socorro.
Robério Oliveira não é um imperador romano. Eunápolis não é Roma. O Pedrão não é uma lira. Mas, neste caso, a alegoria tem menos trabalho do que de costume: o mesmo prefeito já foi condenado, por decisão judicial, por desviar dinheiro da saúde para abastecer o próprio trio elétrico.
De um lado, R$ 5.734.000 em contratos artísticos e uma máquina pública capaz de executar uma festa de grande porte em poucas semanas. Do outro, um hospital formalmente advertido por falta de profissionais, medicamentos, materiais e equipamentos, e uma família dizendo que perdeu a filha depois de esperar cerca de quatro horas por uma cesariana.
A festa tem autor
Quando o Pedrão é anunciado, a prefeitura reivindica a realização. O prefeito aparece na divulgação, a gestão comemora o público, o governo associa sua imagem à grandiosidade da estrutura e ao movimento da economia.
Quando o hospital falha, a responsabilidade se fragmenta entre direção, secretaria, entidade gestora, equipe de plantão e administrações anteriores.
Esta reportagem não atribui a Robério Oliveira responsabilidade médica pelo nascimento sem vida. Não há documento que autorize essa conclusão. A responsabilidade colocada diante do prefeito é política e administrativa: explicar por que uma gestão capaz de mobilizar R$ 5.734.000 para atrações de quatro dias de festa, e que já foi condenada por misturar dinheiro da saúde com entretenimento, ainda não respondeu à denúncia de uma família que diz ter esperado quatro horas por uma cesariana.
Quando a música termina
O povo de Eunápolis tem direito à cultura, ao lazer e à festa. O Pedrão movimenta hotéis, restaurantes, bares, vendedores, motoristas, produtores e trabalhadores temporários, e foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia em 2026. O problema não é o povo dançar. O problema é o governo usar o palco como prova de competência enquanto não responde ao que aconteceu no hospital.
As luzes do Pedrão se apagaram. Os artistas foram embora. A estrutura foi desmontada. A família permaneceu, ainda à espera de respostas sobre as quatro horas relatadas pelo pai, sobre a alegada ausência de anestesista e sobre as circunstâncias que levaram a menina a nascer sem vida.
A prefeitura teve 24 horas para responder. Não respondeu. Os contratos continuam públicos. O silêncio também.
E permanece a pergunta: quais são, afinal, as prioridades do prefeito Robério Oliveira?

