
Os novos desdobramentos dos casos envolvendo a compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste e as investigações sobre o Banco Master aumentaram o clima de preocupação entre integrantes da base do governador Jerônimo Rodrigues (PT).
Segundo informações obtidas pelo Jornal O Bahia Post, os dois assuntos passaram a ocupar conversas reservadas de deputados e lideranças governistas. A avaliação nos bastidores é que a pressão simultânea sobre Rui Costa e Jaques Wagner, dois dos principais nomes do PT baiano, pode produzir desgaste para todo o grupo político em pleno ano eleitoral.
O foco mais recente sobre Rui está em uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia. O relatório apontou “erros administrativos grosseiros” na gestão do Consórcio Nordeste em 2020 e recomendou a reprovação das contas do período, quando o então governador da Bahia presidia a entidade. O processo ainda está em fase de instrução, será analisado pelo colegiado do TCE-BA e não representa decisão definitiva. A palavra final sobre as contas caberá à Assembleia Legislativa da Bahia.
A análise alcança a compra de 300 respiradores realizada durante a fase mais crítica da pandemia de Covid-19. O Consórcio Nordeste pagou antecipadamente R$ 48,7 milhões à Hempcare Pharma Representações, mas os equipamentos não foram entregues. A aquisição também é investigada pela Polícia Federal, com inquérito em tramitação no Superior Tribunal de Justiça.
Segundo a auditoria, Rui Costa e o então secretário-executivo do consórcio, Carlos Gabas, aparecem como responsáveis administrativos pela contratação e podem ser chamados a ressarcir os valores. Os técnicos sustentam que o pagamento foi autorizado sem verificação suficiente da estrutura e das condições legais da empresa contratada.
O relatório também registra que a Hempcare tinha capital social de R$ 100 mil, havia sido criada poucos meses antes do contrato e não possuía registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária para comercializar equipamentos médicos. Os auditores ainda apontaram fragilidades contratuais, falhas de transparência e deficiências nos controles internos do consórcio.
A defesa de Rui afirmou no processo que a compra ocorreu em um cenário excepcional, marcado por emergência sanitária e escassez mundial de equipamentos hospitalares. Também sustentou que a escolha da empresa foi aprovada de maneira colegiada pelos governadores e que foram adotadas medidas para tentar recuperar o dinheiro. Carlos Gabas negou dolo ou má-fé.
Em abril de 2025, o Tribunal de Contas da União arquivou o processo contra Rui e Gabas e determinou a abertura de uma tomada de contas especial contra a Hempcare para buscar o ressarcimento do prejuízo. A decisão do TCU, contudo, não impede o andamento da análise estadual realizada pelo TCE-BA.
Ao mesmo tempo, aliados de Jerônimo acompanham os desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de irregularidades relacionadas ao Banco Master. Em junho, o Supremo Tribunal Federal autorizou mandados de busca e apreensão contra Jaques Wagner e outros investigados. A apuração busca esclarecer uma possível relação ilícita entre executivos ligados à instituição financeira e o senador baiano.
A decisão que autorizou as buscas considerou que havia elementos suficientes para a realização das diligências, mas não representa denúncia, abertura de ação penal ou condenação. Wagner não foi formalmente acusado em processo criminal relacionado aos fatos investigados.
A Polícia Federal investiga se executivos ligados ao banco ofereceram vantagens ao senador e a integrantes de sua família em troca de influência política. Wagner nega ter recebido pagamentos indevidos ou atuado para favorecer o Banco Master. O PT declarou confiança no parlamentar e defendeu a continuidade das investigações.
Após o avanço do caso, Wagner deixou a liderança do governo no Senado. Segundo o próprio parlamentar, a decisão foi tomada para que pudesse se dedicar à demonstração de sua inocência e às articulações eleitorais de 2026. A senadora Teresa Leitão foi indicada pelo presidente Lula para assumir a função.
Nos bastidores da política baiana, o receio é que os dois casos sejam explorados conjuntamente pelos adversários do PT. Rui Costa e Jaques Wagner não ocupam posições periféricas no grupo: os dois foram governadores da Bahia, ajudaram a estruturar a hegemonia petista no estado e permanecem diretamente ligados ao projeto de reeleição de Jerônimo.
Até aqui, não há decisão definitiva do TCE-BA contra Rui Costa nem denúncia criminal contra Jaques Wagner no caso Banco Master. Politicamente, porém, a coincidência dos episódios amplia a necessidade de respostas públicas e obriga o grupo governista a administrar duas crises envolvendo suas lideranças mais influentes durante a preparação para as eleições.
