
A Controladoria-Geral da União registrou 34.733 alertas de indícios de irregularidades em editais e processos licitatórios da administração pública federal entre 1º de janeiro de 2023 e 5 de fevereiro de 2026, período já sob o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A informação foi publicada nesta segunda-feira (30) pela coluna de Paulo Cappelli, no Metrópoles, com base em dados repassados pela própria CGU.
O número chama atenção porque atinge em cheio um dos pontos mais sensíveis de qualquer governo: o controle sobre compras públicas. Mas há um detalhe decisivo para a leitura correta do dado. Esses 34,7 mil registros não significam 34,7 mil fraudes confirmadas. Segundo a própria CGU, tratam-se de alertas gerados por ferramentas preditivas de análise e inteligência artificial, que depois precisam passar por validação individual das equipes de auditoria.
De acordo com a resposta obtida pela coluna, 729 alertas resultaram na abertura de trabalhos de auditoria, concluídos ou ainda em andamento. No curso dessas apurações, a CGU realizou 1.523 comunicações formais a gestores, incluindo notificações, pedidos de informação e recomendações para adoção de medidas saneadoras.
A própria Controladoria também afirmou que não possui base estruturada para ligar automaticamente cada alerta ao seu desfecho final — como suspensão, cancelamento de edital ou envio do caso a outros órgãos. Segundo o órgão, para chegar a esse nível de detalhe seria necessário fazer uma análise manual, caso a caso, dos trabalhos de auditoria e das comunicações emitidas.
Os alertas são produzidos pela plataforma Alice, sistema da CGU que usa mineração de textos e inteligência artificial para examinar diariamente processos de compras e contratações públicas. Em comunicação oficial, a Controladoria descreve a ferramenta como um mecanismo de prevenção, capaz de identificar riscos e inconsistências em editais, dispensas e inexigibilidades antes que o problema avance.
A CGU ressalta, porém, que esses avisos têm caráter orientativo. Em outras palavras, o sistema sinaliza risco, mas não substitui o julgamento técnico ou jurídico dos servidores responsáveis pela análise. É justamente essa distinção que impede tratar o volume de alertas, por si só, como sinônimo automático de corrupção comprovada ou ilegalidade consumada.
Ainda assim, o volume ajuda a dimensionar o tamanho da vigilância sobre as compras públicas. Em balanço oficial divulgado em dezembro de 2025, a CGU informou que a Alice gerou economia superior a R$ 3,15 bilhões desde 2023. Segundo o órgão, em 2023 a ferramenta analisou mais de 190 mil processos; em 2024, outros 161.660; e, até novembro de 2025, mais de 254 mil processos haviam passado pelo sistema.
A ferramenta já vinha sendo apresentada pelo próprio governo como um dos principais instrumentos de controle preventivo. Em nota oficial de 2024, a CGU informou que, entre 2019 e 2023, a Alice identificou R$ 11,7 bilhões em licitações suspeitas que acabaram suspensas ou canceladas por indícios de irregularidades. O órgão também diz que o sistema serve para apontar situações como possível direcionamento de certame, sobrepreço e contratação sem necessidade comprovada.
O dado revelado agora, portanto, tem peso político e administrativo, mas exige leitura precisa. Ele mostra que a máquina de controle da União disparou dezenas de milhares de alertas na gestão Lula. O que ele não mostra, ao menos por enquanto, é quantos desses casos terminaram em fraude confirmada, punição, suspensão definitiva de edital ou responsabilização criminal. A própria CGU reconhece que essa correlação ainda não está organizada em base única.
No plano político, a divulgação deve ampliar a pressão da oposição sobre o Planalto e sobre ministérios responsáveis por grandes contratos. No plano técnico, o número também pode ser lido como retrato de um sistema de controle que opera em larga escala, vasculhando licitações antes da contratação. O que ainda falta saber com mais precisão é o destino concreto desses alertas — e quantos deles, de fato, se converteram em irregularidades comprovadas.

