
O Rei dos Influenciadores?
Na reta final das eleições, enquanto influenciadores declaravam apoio a Lula ou a Flávio Bolsonaro, uma mudança começou a aparecer nas redes sociais. Criadores de conteúdo que habitualmente alternavam opiniões pessoais com anúncios de produtos e serviços passaram a publicar, com maior frequência, vídeos favoráveis ao presidente e ao governo federal. Em alguns perfis observados pela reportagem, a publicidade comercial diminuiu e deu lugar a uma sequência de conteúdos sobre programas, obras e entregas da administração.
Nesse período, O Bahia Post recebeu denúncias de que alguns criadores estariam sendo remunerados, direta ou indiretamente, por estruturas ligadas aos governos federal e da Bahia para produzir conteúdos políticos sem informar ao público sobre a possível relação financeira. A mudança nas publicações não comprova esses relatos, mas motivou uma investigação sobre os contratos e os recursos públicos destinados à comunicação governamental.
O Bahia Post decidiu seguir o dinheiro. Uma análise de dados do orçamento federal identificou R$ 4.494.378.621,62 em recursos comprometidos pelo Poder Executivo com publicidade institucional, campanhas de utilidade pública e patrocínios entre 2023 e 18 de junho de 2026. O montante reúne despesas de diferentes órgãos e não corresponde a pagamentos destinados exclusivamente a influenciadores.
O levantamento utiliza dados do Siga Brasil, sistema mantido pelo Senado Federal que reúne informações do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, o Siafi, e de outras bases orçamentárias. Foram consideradas despesas do Executivo classificadas no elemento “Outros Serviços de Terceiros — Pessoa Jurídica” e nos subelementos “Serviços de Publicidade Institucional”, “Serviços de Publicidade de Utilidade Pública” e “Patrocínios”. Os valores foram atualizados pelo IPCA para permitir a comparação entre os anos.
Em 2023, primeiro ano do atual mandato, o governo empenhou aproximadamente R$ 1,02 bilhão nessas três categorias. O valor passou para R$ 1,08 bilhão em 2024 e alcançou R$ 1,61 bilhão em 2025, um crescimento de aproximadamente 49% em um ano. Entre janeiro e 18 de junho de 2026, outros R$ 785,7 milhões haviam sido comprometidos, levando a soma dos períodos aos R$ 4,49 bilhões.
Esse total representa empenhos: recursos que o governo compromete formalmente para uma despesa. O pagamento ocorre em outra etapa, após a verificação da entrega do produto ou serviço. Como os empenhos podem sofrer alterações e cancelamentos, o valor não equivale ao dinheiro que efetivamente saiu dos cofres públicos durante o mandato.
Para identificar os desembolsos de 2026, O Bahia Post realizou uma segunda consulta ao Siga Brasil, atualizada em 11 de outubro. Foram encontrados aproximadamente R$ 492,7 milhões registrados como pagos no orçamento deste ano, nas mesmas três categorias. A soma considera apenas o Executivo federal e exclui registros do Legislativo, do Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas da União e da Defensoria Pública da União. Esse recorte não reúne os pagamentos de todo o mandato e pode não contemplar despesas de anos anteriores quitadas em 2026 como restos a pagar.
Os recursos financiam uma estrutura que alcança televisão, rádio, jornais, portais, redes sociais, plataformas digitais e outros meios. As despesas incluem tanto publicidade institucional quanto patrocínios e campanhas de utilidade pública, como divulgação de serviços, vacinação e alertas sanitários. O montante não está concentrado exclusivamente na Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
A identificação dos destinatários finais exige ir além dos registros orçamentários. Órgãos públicos contratam agências de publicidade, que distribuem recursos entre veículos de comunicação, plataformas, produtoras e outros fornecedores responsáveis pelas campanhas. Nos sistemas públicos, o nome do favorecido principal de um pagamento não necessariamente revela todas as empresas e pessoas que receberam parcelas do dinheiro por intermédio da agência.
A estrutura oficial da Secom contempla produtores de conteúdo em plataformas digitais entre os participantes da publicidade governamental na internet.
As despesas também chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral. Em junho, o Partido Liberal apresentou uma representação contra Lula e o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, sob a alegação de que o governo havia ultrapassado o limite de publicidade institucional no primeiro semestre do ano eleitoral. O partido pediu a suspensão de novos empenhos até que os valores fossem esclarecidos.
A regra eleitoral limita os empenhos de publicidade institucional nesse período a seis vezes a média mensal dos valores empenhados e não cancelados nos três anos anteriores. Pelos cálculos apresentados pelo PL, o teto semestral de 2026 seria de aproximadamente R$ 618,1 milhões. O partido comparou esse limite aos R$ 785,7 milhões registrados até 18 de junho e apontou uma diferença de R$ 167,6 milhões, equivalente a 27,1%.
O cálculo está sob discussão no processo. A representação reconhece a necessidade de verificar cancelamentos, anulações, reforços e despesas que podem não integrar o limite eleitoral. O levantamento mais amplo reúne publicidade institucional, campanhas de utilidade pública e patrocínios, enquanto a restrição discutida na ação se refere especificamente à publicidade institucional.
Em agosto, o ministro André Mendonça determinou que o governo apresentasse informações detalhadas sobre as despesas realizadas entre 2023 e o primeiro semestre de 2026. Também ordenou a preservação dos registros e históricos dos sistemas utilizados para controlar esses gastos. A decisão pediu esclarecimentos e análise técnica diante das diferenças entre as bases de cálculo, sem concluir que o governo havia ultrapassado o teto.
Enquanto o processo discute os limites da publicidade eleitoral, outra frente permanece aberta: o percurso do dinheiro até os responsáveis pelos conteúdos publicados nas redes sociais. Os registros examinados dimensionam os recursos comprometidos, mas não permitem identificar, por si só, quanto chegou a produtores de conteúdo nem confirmar pagamentos aos perfis observados pela reportagem.
As denúncias recebidas por O Bahia Post descrevem propostas para a produção de conteúdos políticos ou favoráveis a governos sem identificação da relação financeira. A apuração busca verificar esses relatos e localizar documentos que associem pagamentos específicos a pessoas, empresas e publicações. O apoio manifestado nas redes, isoladamente, não estabelece esse vínculo.
A questão central é saber se mensagens apresentadas aos seguidores como opiniões espontâneas foram, na realidade, remuneradas com dinheiro público. Identificar quem financiou uma publicação permite ao leitor distinguir uma manifestação pessoal de uma peça publicitária e acompanhar como os recursos do governo foram utilizados.
O Bahia Post busca agora identificar as agências responsáveis pelas campanhas, os fornecedores contratados, os planos de mídia aprovados e os eventuais pagamentos a produtores de conteúdo. A investigação também pretende verificar quais critérios orientaram a seleção dos perfis e se as publicações contratadas foram identificadas como publicidade.
Os R$ 4,49 bilhões mostram a dimensão dos recursos comprometidos pelo Executivo com publicidade institucional, campanhas de utilidade pública e patrocínios no período analisado. Descobrir quanto desse dinheiro chegou a criadores de conteúdo — e quais mensagens ele financiou — é a parte do caminho que ainda vamos percorrer, seguindo contratos, agências e pagamentos até os destinatários finais.