
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, nesta quarta-feira (1º), em Vera Cruz, do ato que marcou o início oficial das obras da Ponte Salvador-Itaparica, uma das promessas mais antigas e simbólicas da infraestrutura baiana. A cerimônia contou também com a presença do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e foi tratada pelo governo como a entrada do projeto na fase de construção.
A obra tem peso político e econômico porque atravessa décadas de anúncios, estudos, expectativas e cobranças públicas. Para o governo, o início dos trabalhos representa um marco para a mobilidade e o desenvolvimento regional. Para parte dos baianos, especialmente nas redes sociais, o sentimento ainda mistura comemoração, cautela e desconfiança, justamente pelo histórico longo de promessas em torno da ligação entre Salvador e a Ilha de Itaparica.
Durante o evento, Lula afirmou que a ponte é necessária para desenvolver a Bahia no século XXI. O empreendimento integra o Novo PAC e tem investimento estimado em R$ 11,6 bilhões, com participação do Governo Federal, do Governo da Bahia e do consórcio responsável pela obra.
A ponte terá 12,4 quilômetros de extensão sobre a Baía de Todos-os-Santos e é apresentada pelo governo como a maior ponte sobre lâmina d’água da América Latina. O projeto também prevê acessos viários em Salvador, uma via expressa na Ilha de Itaparica e intervenções na BA-001, dentro do chamado Sistema Viário Oeste.
O governo sustenta que a obra deve reduzir distâncias, criar um novo corredor logístico e beneficiar municípios do Recôncavo, Baixo Sul, Sul e Oeste da Bahia. A Agência Brasil informou que a previsão de conclusão é 2031 e que o empreendimento pode reduzir em mais de 200 quilômetros o deslocamento de cargas entre Salvador e parte do interior.
Mas a reação nas redes mostrou que o início oficial das obras não encerrou a cobrança pública. Muitos usuários celebraram o avanço e classificaram o ato como um momento histórico para a Bahia. Outros lembraram que a ponte já foi anunciada em diferentes momentos e cobraram que, desta vez, o projeto saia definitivamente do campo da promessa.
A desconfiança tem base no próprio histórico do empreendimento. O Governo da Bahia já registrava que a ideia de uma ligação entre Salvador e Itaparica aparece desde 1967, quando o arquiteto Sérgio Bernardes formulou uma proposta dentro do Plano Diretor do Centro Industrial de Aratu. Décadas depois, o projeto voltou a ganhar força institucional. A Desenbahia registrou que a decisão de construir a ponte foi tomada pelo Governo da Bahia em 2010 e que, em 2011, empresas interessadas apresentaram propostas relacionadas ao empreendimento.
Desde então, a ponte passou por apresentações, estudos, modelagens, promessas, críticas e sucessivos anúncios. Por isso, a cerimônia desta quarta-feira teve dupla leitura: de um lado, o governo tentou transformar o início das obras em símbolo de entrega e retomada de grandes investimentos; de outro, parte do público reagiu lembrando que o projeto é cobrado há anos.
A Ponte Salvador-Itaparica também deve seguir no centro da disputa política baiana. Para o governo Jerônimo, a obra é uma vitrine de infraestrutura e uma aposta para marcar a gestão. Para a oposição, o histórico de atrasos e anúncios anteriores continuará sendo usado como cobrança sobre prazos, execução e credibilidade.
O ato em Vera Cruz coloca o projeto em uma nova fase, mas a pressão agora muda de eixo. A pergunta que domina a reação de muitos baianos não é mais apenas se a ponte será iniciada, mas se o cronograma será cumprido, se os impactos sociais e ambientais serão bem administrados e se a obra chegará ao fim dentro do prazo anunciado.