
O senador Jaques Wagner (PT-BA) procurou o ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal, cerca de uma semana antes de ser alvo de uma operação da Polícia Federal. A informação foi revelada pela coluna de Malu Gaspar, em O Globo, e acrescenta um novo capítulo à crise que já levou Wagner a deixar a liderança do governo no Senado.
A reunião ocorreu no dia 10 de junho. O objetivo de Wagner era apresentar sua versão sobre a relação com o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, e com o banqueiro Daniel Vorcaro. O ponto sensível é o momento do encontro: a Polícia Federal já havia preparado a ofensiva que resultaria nas buscas contra o senador dias depois.
A iniciativa provocou estranhamento entre investigadores porque o pedido de busca e apreensão contra Wagner já estava em tramitação no Supremo. A representação policial, conforme publicado, já havia sido assinada quando o senador esteve com Mendonça para tratar do caso.
Na audiência, Wagner teria sustentado que não havia irregularidades em sua relação pessoal com os empresários nem nos contratos firmados entre a empresa de sua nora, Bonnie de Bonilha, e companhias ligadas ao chamado ecossistema de Vorcaro. O senador também apresentou sua explicação sobre a implantação do Credcesta na Bahia, produto de crédito consignado operado pelo Banco Master.
A operação foi deflagrada em 18 de junho. A Polícia Federal cumpriu mandados na residência de Wagner, em Salvador, e no hotel onde o senador se hospedava em Brasília. Durante a ação, foram apreendidos US$ 55 mil, € 33 mil, documentos e o celular do parlamentar.
Wagner afirmou em entrevista à imprensa que os valores em moeda estrangeira eram recursos acumulados de diárias recebidas em viagens internacionais pelo Senado ao longo dos anos. A investigação, no entanto, apontou que os envelopes do Senado mencionados pelo parlamentar não foram localizados nos endereços vistoriados.
Na decisão que autorizou as buscas, André Mendonça afirmou que Augusto Lima teria atuado como canal de interlocução entre Daniel Vorcaro e Jaques Wagner em temas estratégicos para o Banco Master. Entre os assuntos citados estão o rating da instituição, a estrutura acionária, a CPI do Master e a tentativa de venda do banco ao BRB, operação barrada pelo Banco Central.
A Polícia Federal também aponta que a relação entre Wagner e Augusto Lima teria sido marcada por elevado grau de confiança pessoal, criando ambiente para tratativas reservadas em defesa de interesses privados do banco. O senador nega irregularidades.
A investigação cita ainda episódios anteriores envolvendo Wagner e Lima, incluindo a privatização da Empresa Baiana de Alimentos, a Ebal, em 2018, quando Wagner era secretário da Fazenda da Bahia. A proposta de incluir um cartão de benefícios consignado no edital acabou dando origem ao Credcesta, produto que depois passou a integrar a carteira do Banco Master.
Outro ponto da apuração envolve um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões. Wagner reconheceu que o imóvel foi adquirido por Augusto Lima, mas afirmou que a unidade seria destinada à sua filha e que pretendia ressarcir o empresário posteriormente. O senador também admitiu ter recebido ingressos para shows de Taylor Swift, mas negou que qualquer presente tenha gerado contrapartida política.
Após a operação, Wagner classificou a ação da PF como uma “patacoada” e criticou o que chamou de espetacularização do caso, em referência à divulgação de imagens do dinheiro e de relógios apreendidos. Dias depois, anunciou sua saída da liderança do governo no Senado, decisão tomada após conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O novo detalhe revelado sobre a reunião com André Mendonça amplia o desgaste político do senador baiano. O encontro, ocorrido antes da operação e quando a PF já avançava sobre o pedido de buscas, coloca Wagner novamente no centro das atenções em Brasília e na Bahia, em meio a uma investigação que aproxima o Banco Master de figuras do núcleo político petista.