
A proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, abriu uma nova fase do caso e colocou a política baiana em estado de alerta. A defesa do banqueiro entregou à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República os anexos da colaboração em um pen drive, já sob análise das autoridades. Segundo a CNN Brasil, o material foi organizado por personagens e episódios, com relatos sobre encontros, viagens, festas e relações com atores políticos de vários campos.
O peso da movimentação cresce porque o caso Master já deixou de ser apenas um escândalo financeiro. A Reuters mostrou em março que a rede de influência montada por Vorcaro alcançou figuras do topo de Brasília e, nesta semana, revelou nova escalada com busca contra o senador Ciro Nogueira em um desdobramento que ampliou o alcance político da investigação. A defesa do parlamentar nega irregularidades.
Na Bahia, o caso já ganhou contornos próprios antes mesmo de qualquer delação homologada. Em reportagem publicada pelo O Bahia Post, documentos da Receita Federal colocaram Otto Alencar Filho no centro de uma nova frente do escândalo ao mostrar que a Mollitiam Financeira, ligada a ele por meio da M&A Participação, recebeu R$ 12 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025. Em nota, Otto Filho afirmou que todos os serviços foram faturados, contabilizados e tiveram impostos pagos. Em outra apuração original, o O Bahia Post mostrou que o tema ganhou peso adicional quando esses repasses passaram a conviver com o voto do senador Otto Alencar contra o relatório final da CPI do Master, ampliando o constrangimento político em torno do núcleo familiar ligado ao caso.
O caso também encostou na máquina estadual. Dados do Portal da Transparência, reproduzidos pela imprensa baiana, mostram que a gestão do governador Jerônimo Rodrigues realizou 207 pagamentos ao Banco Master entre 2023 e fevereiro de 2026, somando cerca de R$ 49,2 milhões. Segundo esclarecimento da Saeb reproduzido pela imprensa, os registros não indicam contratação direta do Estado com o banco, mas repasses decorrentes de cessões de crédito escolhidas por beneficiários da antecipação de precatórios do Fundef.
É aí que a delação deixa de ser apenas um problema jurídico e passa a tocar o cerne da disputa eleitoral. Em ano pré-eleitoral, a entrada de novos nomes, documentos ou relatos no caso pode alterar percepções já cristalizadas do eleitor, enfraquecer alianças e redistribuir desgaste entre governo e oposição. Isso não significa que a delação, sozinha, definirá o voto. Mas significa que ela pode mexer no ambiente em que esse voto será formado, sobretudo se trouxer fatos novos sobre personagens já conhecidos do eleitorado baiano. Essa leitura é consistente com a literatura sobre corrupção e accountability no Brasil.
Dois estudos ajudam a entender esse ponto. Um trabalho do NBER sobre auditorias públicas no Brasil concluiu que a exposição de irregularidades aumenta a accountability judicial e política e reduz a corrupção futura, efeito associado ao custo político mais alto para quem passa a ser vigiado publicamente. Outro estudo do mesmo centro mostrou que programas anticorrupção também reduzem a disposição de eleitores em sustentar relações clientelistas, especialmente em períodos eleitorais. Em outras palavras: quando escândalos ganham prova, nomes e narrativa, o eleitor pode reavaliar lealdades que antes pareciam consolidadas.
Segundo apuração do O Bahia Post, interlocutores do meio político baiano tratam como plausível que a colaboração de Vorcaro avance sobre personagens que já apareceram na borda documental do caso, seja por pagamentos, relações empresariais ou operações financeiras. Os anexos da colaboração, porém, seguem sob sigilo, e ainda não há confirmação pública sobre quais nomes baianos aparecem efetivamente no material entregue à PF e à PGR.
O que existe, por enquanto, é uma combinação explosiva: um banqueiro no centro de um escândalo nacional, uma delação em análise e um caso que já alcançou a Bahia por mais de uma trilha. Nos bastidores do estado, a expectativa deixou de ser abstrata. A preocupação agora é outra: se os próximos anexos trouxerem fatos novos sobre nomes já expostos, o efeito pode não ficar restrito aos tribunais. Pode chegar, com força, à urna.
