
COLUNA DE MARCOS GOUVEIA
O Brasil aparece atrás da Índia, Argentina e México no ranking de qualidade de vida do Numbeo de meados de 2026: ocupa a 66ª posição, enquanto os indianos estão em 65º, argentinos em 62º e mexicanos em 61º. O levantamento colaborativo oferece uma comparação internacional. Os dados brasileiros, porém, revelam uma distância ainda mais expressiva dentro das próprias fronteiras.
Essa distância ajuda a explicar por que uma melhora na economia pode conviver com tanta precariedade. A renda de uma família pode aumentar enquanto sua casa permanece sem esgotamento adequado. Conseguir trabalho tampouco garante escapar da pobreza. Desenvolvimento envolve a combinação entre dinheiro disponível, infraestrutura e condições de viver com segurança.
Confira o Nosso Mapa Indicador de Qualidade de Vida
Qualidade de vida no mundo
Numbeo · Meio de 2026 · 89 países e territórios
Toque em um país ou escolha na lista para consultar o índice.
O mapa precisa de JavaScript para carregar. Você também pode consultar a fonte abaixo.
Brasil: 117,16 pontos · Índia: 119,00 pontos.
Quanto maior o índice, melhor o resultado. Cinza indica país ou território sem dado nesta edição. O índice não é uma porcentagem.
Fonte: Numbeo — Qualidade de Vida, Meio de 2026. Visualização: O Bahia Post. Dados fixos desta edição, sem atualização automática.
O saneamento dá a dimensão desse problema. Segundo o Censo de 2022, aproximadamente 49 milhões de brasileiros viviam em domicílios com soluções precárias de esgotamento sanitário. Eram quase um quarto da população. Entre essas soluções estavam fossas rudimentares e o despejo em valas, rios e outros corpos d’água.
No Maranhão, 48,3% da população utilizava fossa rudimentar ou buraco como destino do esgoto. A expressão técnica descreve uma deficiência com consequências concretas: o saneamento inadequado favorece a transmissão de doenças, conforme a Organização Mundial da Saúde. A infraestrutura ausente acaba aparecendo como problema de saúde e restrição ao bem-estar.
Outro resultado do Censo mostra a profundidade do atraso regional. Em 2022, 6% dos moradores do Nordeste viviam em domicílios sem canalização de água. No Sudeste, essa proporção já era de 2,1% em 2000. Mais de duas décadas separavam os levantamentos, e a região nordestina ainda apresentava uma privação proporcionalmente maior.
O rendimento também varia muito conforme o endereço. Na divulgação do IBGE referente a 2025, a renda domiciliar mensal por pessoa era, em média, de R$ 1.219 no Maranhão e R$ 1.465 na Bahia. Para o Brasil, o valor chegava a R$ 2.316. O rendimento maranhense correspondia a pouco mais da metade da média nacional.
A leitura conjunta desses números aponta uma dificuldade adicional: regiões com menor renda também precisam superar grandes carências de infraestrutura. O orçamento doméstico pode comprar alguns serviços e equipamentos, mas tem alcance limitado diante da ausência de uma rede de esgoto. A melhora econômica depende também de condições que uma família não consegue produzir sozinha.
A distribuição da pobreza torna esse contraste mais evidente. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, 39,4% da população nordestina estava abaixo da linha de pobreza adotada pelo levantamento em 2024. No Sul, eram 11,2%. A incidência no Nordeste era mais de três vezes maior.
O problema alcançava inclusive quem trabalhava. No conjunto do país, cerca de 12 milhões de pessoas ocupadas viviam na pobreza naquele ano. O dado ajuda a compreender os limites de uma análise baseada apenas na existência de emprego: remuneração, número de dependentes e demais rendimentos do domicílio também determinam as condições de vida.
Na segurança, as diferenças territoriais são igualmente expressivas. O Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou para a Bahia uma taxa de 40,9 homicídios por 100 mil habitantes em 2024. Houve redução em relação aos 44,7 do ano anterior, mas o resultado permanecia acima do dobro da taxa nacional, de 20,1.
No Maranhão, o movimento recente foi de piora: a taxa de homicídios registrados passou de 28,9 para 31,1 por 100 mil habitantes entre 2023 e 2024. A redução observada em uma parte do país, portanto, não descreve necessariamente a experiência de quem vive em outra.
Essas diferenças mostram por que a qualidade de vida exige uma leitura territorial. Uma renda maior amplia possibilidades, mas o acesso à infraestrutura e a exposição à violência também condicionam essas possibilidades. O mesmo avanço econômico pode produzir experiências muito diferentes conforme as condições do lugar onde se vive.
A trajetória brasileira, entretanto, não cabe numa narrativa de decadência contínua. Houve retrocessos importantes: a proporção de pessoas na pobreza passou de 30,9% em 2014 para 36,8% em 2021, durante a pandemia. Depois, recuou até alcançar 23,1% em 2024, o menor patamar da série iniciada em 2012.
Também houve expansão da infraestrutura. A parcela da população atendida por rede de coleta de esgoto cresceu de 52,8% em 2010 para 62,5% em 2022. Reconhecer esse avanço permite dimensionar a insuficiência que permaneceu: a cobertura aumentou, mas milhões continuavam expostos a soluções precárias.
O argumento mais consistente está nessa convivência entre recuperação e privação. Os indicadores melhoram sem que desapareçam as diferenças acumuladas entre regiões e grupos sociais. Uma média nacional pode registrar progresso enquanto parcelas numerosas da população continuam distantes de condições já disseminadas em outras partes do país.
É possível reconhecer a recuperação recente e cobrar uma transformação mais profunda. O progresso brasileiro continuará incompleto enquanto o endereço determinar, em tamanha medida, o acesso ao saneamento, à renda e à segurança.
A posição internacional está no Numbeo de meados de 2026. Os dados de infraestrutura vêm do Censo 2022 — Características dos Domicílios, publicação do IBGE. As comparações econômicas utilizam a divulgação do rendimento domiciliar de 2025 e a Síntese de Indicadores Sociais 2025. Os registros de homicídios constam do Atlas da Violência 2026. As consequências sanitárias são descritas pela Organização Mundial da Saúde.

