
OPINIÃO
Uma bancada ocupada e outra vazia. A imagem produzida na reta final da eleição para o Governo da Bahia acabou resumindo, sem necessidade de muitas palavras, uma decisão política: enquanto ACM Neto (União Brasil) compareceu ao último debate da TV Bahia antes do primeiro turno, o governador Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição, decidiu não participar.
A ausência não determina o voto de ninguém, nem deve ser analisada isoladamente de toda uma campanha. Mas merece escrutínio. Debates estão entre os poucos momentos de uma eleição em que candidatos são submetidos, simultaneamente, a perguntas, contrapontos e cobranças diante do eleitorado.
A campanha de Jerônimo apresentou sua justificativa. O governador participou naquele dia de compromissos políticos ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Salvador, incluindo uma caminhada entre Ondina e a Barra. O coordenador da campanha, Adolpho Loyola, afirmou que a sequência de atividades inviabilizaria a presença de Jerônimo no debate.
A agenda divulgada pela campanha já não incluía o encontro da TV Bahia.
É uma escolha estratégica compreensível sob a lógica eleitoral. Lula é o principal aliado nacional de Jerônimo e possui peso político significativo na Bahia. Uma campanha pode avaliar que dividir a cena com o presidente oferece maior retorno do que comparecer a determinado debate.
Essa decisão, porém, tem um custo igualmente político: abre espaço para perguntas que deixam de ser feitas diretamente ao candidato.
No caso de Jerônimo, a relevância desse confronto é ainda maior porque ele não chega à disputa apenas com propostas para o futuro. É o atual governador da Bahia. Portanto, carrega também um mandato a explicar.
Saúde, fila da regulação, segurança pública, economia, obras, educação e os resultados alcançados ao longo de sua administração são assuntos sobre os quais o eleitor tem interesse legítimo em ouvir respostas — inclusive quando as perguntas são desconfortáveis.
Não foi a primeira ausência
O debate da TV Bahia não foi o único compromisso desse tipo do qual Jerônimo ficou fora na reta final.
Na segunda-feira (28), o governador também não participou da sabatina do Projeto Prisma, promovida pelo Bahia Notícias. O espaço havia sido reservado para entrevistá-lo, mas, segundo informou o apresentador Fernando Duarte, a assessoria comunicou na noite anterior que Jerônimo não poderia comparecer devido a compromissos da campanha.
ACM Neto havia participado da mesma série de entrevistas uma semana antes, no dia 21. Ronaldo Mansur (PSOL) também havia sido entrevistado pelo programa.
As duas ausências em sequência tornam legítima uma discussão que ultrapassa a disputa entre PT e União Brasil: qual deve ser o peso dos debates e das sabatinas públicas para quem disputa o comando de um estado?
Uma eleição apertada
O episódio ocorre justamente em um momento de equilíbrio na corrida pelo Governo da Bahia.
Pesquisa Quaest divulgada em 24 de setembro mostrou ACM Neto com 42% das intenções de voto e Jerônimo Rodrigues com 40%. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, os dois estavam tecnicamente empatados.
O levantamento ouviu 900 eleitores baianos com 16 anos ou mais entre os dias 20 e 23 de setembro. O nível de confiança informado é de 95%.
Em uma disputa nessa configuração, cada aparição pública passa a ter peso estratégico para as campanhas. Comparecer ou não a um debate também faz parte dessa estratégia.
Debate não é apenas confronto
Debates eleitorais frequentemente são lembrados pelos ataques, frases de efeito e embates entre adversários. Essa, porém, é apenas uma dimensão desses encontros.
Eles também permitem comparar respostas dadas sob condições semelhantes.
É diferente assistir a uma propaganda produzida pela própria campanha, acompanhar uma caminhada ou ouvir um discurso diante de apoiadores. No debate, existe contraditório. Há perguntas que o candidato não escolheu previamente e a possibilidade de ser confrontado sobre suas próprias respostas.
Para quem já governa, esse espaço também funciona como mecanismo de prestação de contas.
Isso não significa que um candidato seja obrigado a comparecer a todos os eventos aos quais é convidado. Campanhas fazem escolhas, administram agendas e priorizam compromissos.
Da mesma forma, o eleitor pode levar essas decisões em consideração ou entender que elas têm pouca importância diante de outros fatores.
O ponto central é que a ausência também produz informação.
A imagem que ficou
A campanha de Jerônimo optou por estar ao lado de Lula. ACM Neto optou por ocupar o espaço do debate. Cada campanha responderá politicamente pelas decisões que tomou.
Mas a fotografia daquela noite registra um fato simples: havia um espaço destinado ao governador da Bahia, e ele permaneceu vazio.
Não cabe a uma cadeira responder sobre segurança pública, saúde, regulação, economia ou quatro anos de administração.
Essas respostas pertencem aos candidatos.
E, naquela noite, algumas delas poderiam ter sido dadas ali.

